Luciana Branco
09.10.2023

Broxável

Sou do tipo de gente que sempre achou bonito levantar rápido quando caiu. Limpar o arranhado, sorrir e dizer que “não foi nada”. Talvez você seja assim também. Tenha sido ensinada ou ensinado que esse é o jeito certo de viver.

“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, diz o samba.

Aliás, quando se cai, ainda se sabe porque está doendo, mas e quando a dor tá lá e você ainda não entendeu de onde surgiu?

A vida vai passando e quanto mais eu aprendo a respeitar meus próprios sentimentos, mais difícil é simplesmente fingir que nada aconteceu, que nada se passa dentro de mim.

Mesmo que “nada tenha acontecido”, ainda assim, há dias que estou “assim assim”. Uma tia avó chamava isso de “fiaca”.

Como a Natureza, temos dias mais iluminados e outros mais chuvosos. Respeitá-los, é respeitar nossa própria Natureza.

Estudando para meu TCC na pós de Análise Junguiana que curso no IJEP, me deparei com esse parágrafo aqui, escrito por CG Jung, meu atual muso: “Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza” (parágrafo 28 de Psicologia do Inconsciente 7/1).

É isso, amar ao outro como a si mesmo. Então, amar a si mesmo. Hoje entendo o amor, antes de mais nada, como respeito. Se o dia está sombrio, como posso me cuidar, que comida ingerir, o que escutar? Ficar em silêncio? Encontrar ou não pessoas? Agir como agem os passarinhos quando a chuva começa. Se cuidam, se protegem.

Consciência e autocuidado.

Aliás, isso sim é autocuidado e não os produtos que tentam nos vender com esse selo!

O autocuidado custa a moeda mais valiosa que temos: nosso tempo. E também a sinceridade de encarar de frente o fato de que como seres humanos somos broxáveis …. Ter coragem para seguir com delicadeza consigo mesmo, sem pílulas azuis ou mágicas que garantam a unitaleralidade do prazer.

A vida, em sua inteireza. E um dia, no tempo da coisas, o Sol brilha de novo.